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Sobre o Ventoforte

Fundado em 1974 pelo diretor Ilo Krugli, argentino radicado no Brasil, e por Silvia Aderne, Caique Botkay, Silvia Heller, Beto Coimbra e Alice Reis, o Teatro Ventoforte possui uma estrutura comunitária, que exprime a vocação dos seus integrantes. O grupo acredita na potencialidade artística de qualquer ser humano, assuma ela uma expressão profissional ou não e se dedica com ênfase ao universo infantil, por meio da criação de espetáculos e de atividades integradas num projeto maior de educação.

Tendo em mira as culturas populares da América Latina, o Ventoforte, sempre sob a direção de Krugli, pauta seu trabalho pela exploração desse universo, sintonizado nos folguedos populares, mitos e histórias lendárias dos povos do continente. Em 1974, o grupo cria História de Lenços e Ventos, realização para qualquer idade, na qual os objetos ganham uma surpreendente capacidade de transformação, a montagem recebe o prêmio de melhor espetáculo infantil da Associação Carioca de Críticos Teatrais.

Em 1975, surge Da Metade do Caminho ao País do Último Círculo e, no ano seguinte, As Pequenas Histórias de Lorca, no qual recursos do teatro de animação ganham impulso e materializam as líricas evocações do autor espanhol. Na crítica ao espetáculo, Yan Michalski descreve: “A linguagem cênica leva às últimas consequências de expressão visual e auditiva as mais profundas sugestões poéticas do texto. À contagiante alegria das danças que nos acolhem na entrada contrapõe-se o colorido preto e cinza das roupas. As quentes luzes coloridas contracenam com brutais golpes de uma luz impiedosamente branca e dura. Cantos de lamentos convivem com exuberantes sugestões sonoras da feira popular, obtidas seja através de recursos propriamente musicais - canto, violão - seja através do uso muito inventivo de toda espécie de objetos manejados em função do seu potencial sonoro. O saldo é exuberantemente positivo, não só pela admirável riqueza criativa e sensibilidade poética da encenação, mas também porque o elenco absorveu magnificamente a essência da proposta e respondeu com uma alma coletiva impressionantemente una”.

As realizações seguintes, Mistério das Nove Luas, de Ilo Krugli, Paulo César Brito e Sonia Piccinin, 1977; e Sonhos de Um Coração Brejeiro, de Ernesto Albuquerque, 1978, aproveitam contos e narrativas populares em espetáculos cheios de ritmo, cor e movimento.

Em 1980, o Ventoforte fixa-se em São Paulo e constrói um pequeno teatro na Rua Tabapuã, que logo reúne em torno de si uma legião de admiradores. Faz nova encenação de Lenços e Ventos, em 1980, e remonta A História de um Barquinho, em 1981, texto encenado por Ilo antes da fundação do grupo. Em 1983 nasce História de Fuga, Paixão e Fogo, de Alejo Carpentier, que novamente recorre a elementos naturais e lendas latino-americanas. Em meados da década 1980, o conjunto se consolida com a construção de três galpões-teatro: teatro dos pés (dança), medindo 30,00 x 8,00 x 7,00, com sessenta lugares, teatro das mãos (oficina/teatro), medindo 30,00 x 12,00 x 11,00, com lotação para 120 lugares, teatro dos olhos (bonecos), medindo 19,00 x 12,00 x 7,00. A área total do espaço é de 4.873 m2. Os portões desse espaço, no Itaim Bibi, são dedicados aos quatro elementos da natureza e o coreto, no centro, é batizado como Pátio do Coração. O espetáculo Labirinto de Januário, em 1985, já na nova sede, traz novo impulso criativo centrado na cultura nordestina.

Suas realizações vão, cada vez mais, deixando de classificar a platéia por faixas etárias, na certeza de que o poder da imaginação deve ser despertado em qualquer idade, através de múltiplos estímulos.

Recorrendo à música, às histórias orais, ao uso de bonecos, a panos e objetos trabalhados artesanalmente, a brilho e alegria presentes na cultura popular, o grupo acredita no poder transformador da arte e na sua capacidade de mudar as normas de convivência.

Na década de 1990, o grupo luta pela preservação de sua sede, sofrendo pressões políticas para desocupar o terreno em que está instalado e que fica próximo à ponte Cidade Jardim, Na Rua Brigadeiro Haroldo Veloso, 150, Itaim Bibi, São Paulo - SP, Cep.: 04.533-080, uma das áreas mais valorizadas da cidade pela especulação imobiliária. O Teatro Ventoforte foi integrado ao Parque do Povo e funciona normalmente com suas atividades culturais.

O Ventoforte tem 45 anos de história e a criação de uma dramaturgia própria. O grupo é divisor de águas no teatro para jovens e crianças com a peça “Histórias de Lenços e Ventos”. O Ventoforte e seu idealizador, Ilo Krugli, fazem parte de um grupo de intelectuais que atuaram na educação através da arte, como Nize da Silveira, Paulo Freire, Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira. O trabalho do grupo se alimenta nas festas, celebrações e narrativas populares. Claramente do sonho e do brinquedo da criança; ao mesmo tempo, como ela, não fazem distinção entre as linguagens diversas: animando objetos, usando cores em movimento, desenhos, água, terra, papéis, fogo e ar, canto e dança.

O Ventoforte possui repertório com mais de 30 espetáculos, textos dramatúrgicos e musicais próprios, com uma equipe premiada no Brasil e internacionalmente, com prêmios: Mambembe, Governo do Estado, APCA, FEMSA, Molière, Shell, Títere de Ouro (Uruguai), melhor espetáculo no exterior (Cuba Havana), entre outros.

Sobre o Diretor – Ilo Krugli

Instalado com seu teatro no tombado Parque do Povo, no bairro paulistano do Itaim, Ilo Krugli, nascido Elias Kruglianski, está no Brasil há mais de 30 anos. Filho de judeus poloneses que imigraram para a Argentina, passou a adolescência em Buenos Aires.

"Como a nossa sociedade é fruto da união das mais diversas culturas e povos, a criança pode ser a raiz, porque é uma coisa verdadeira, é a cultura arcaica, primitiva do homem..." por: Ilo Krugli .
Com uma vida plena de aventuras e descobertas, deixou seu país em 1959 para, como muitos de sua geração, fugir do eurocentrismo. Percorreu a América Latina, escolheu ficar no Brasil, mas não abandonou as periódicas viagens pela Europa e Américas.
Esteve no Chile dirigindo o grupo de teatro Manos, dissolvido pelo exército de Augusto Pinochet. Às vésperas do golpe, ouviu de Salvador Allende em conversa rápida: Eu gosto muito de crianças, também sou uma criança que às vezes gosta de jogos perigosos. Embora reconheça que em todos os países latino-americanos houve golpes de Estado, espera não ver jamais o que se passou no Chile em 1973.
Anos depois, no Rio de Janeiro que sempre o encantou, contava a História de um Barquinho basicamente com as mãos, mostrando a flor Irupê e a breve vida da borboleta.
No Rio conviveu e trabalhou com intelectuais que contribuíram para fortalecer seus talentos, como os educadores Augusto Rodrigues e Anísio Teixeira, o poeta Ferreira Gullar, a psiquiatra Nise da Silveira, todos em volta da Escola de Arte do Brasil (EAB).
Foram as apresentações do Teatro de Ilo e Pedro, em 1966, durante os festejos de inauguração do Parque do Aterro do Flamengo, que deram origem ao Teatro de Fantoches e Marionetes Carlos Werneck de Carvalho. Ilo Krugli orientou a construção desse teatro, criando um palco adaptável a diferentes técnicas de bonecos, de acordo com a época. O Carlos Werneck foi reinaugurado em 1995 e o sucesso de seus projetos levou a Secretaria da Cultura a criar a Coordenadoria de Teatro de Bonecos e Animação.
Foi também no Rio que o dramaturgo inaugurou uma nova maneira de pensar o teatro, que considera, antes de tudo, uma forma de conhecimento. Tudo começou com o trabalho em educação que realizou na periferia do Méier, no Centro de Arte e Criatividade Infanto-juvenil. Mais interessado em cruzar os portões da escola, Ilo e seu grupo vão para a comunidade e fazem a festa, na tentativa de eliminar a distância entre quem faz e quem vê.
Os espetáculos do Ventoforte sempre abrem em direção ao público, à festa popular. Algumas montagens de As Pequenas Histórias de Lorca terminavam na rua. O Mistério das Nove Luas começava na porta dos teatros.
Nos anos da ditadura militar, Ilo está no palco com Histórias de Lenços e Ventos, peça que marcou a trajetória do teatro para crianças no Brasil. Utilizando bonecos, lenços, latas, instrumentos musicais e objetos, o grupo conta a história de Azulzinha (um lenço) e seu amigo Papel (um pedaço de jornal) que enfrentam o poder do rei Metal Mau. Sem impostação e ambientada nos quintais da infância, a peça fala de liberdade, afetividade e uma vida melhor, baseando-se em textos de autores como Federico García Lorca e Victor Hugo.
A aventura de Ilo Krugli e o Teatro Ventoforte é, principalmente, estética. Foi a sua força poética transportada para o palco que introduziu um jeito de conversar com crianças e adultos, circulando com naturalidade nos dois universos. E esse jeito tornou-se um exemplo e uma referência para várias gerações de artistas e educadores.
A busca das raízes do homem sempre foi uma preocupação do Ventoforte. Como a nossa sociedade é fruto da união das mais diversas culturas e povos, a criança pode ser a raiz, porque é uma coisa verdadeira, é a cultura arcaica, primitiva do homem, diz Ilo. Seguindo essa linha, o trabalho com crianças e jovens tem sido alimento para as encenações, elemento de ligação entre o homem e o mundo. Com isto, conquisto o fundamental para sobreviver e continuar.
Em meio às circunstâncias políticas e à trajetória pessoal do seu fundador, o Ventoforte surgiu em 1974 como um teatro de resistência. Suas peças falam das realidades mais cruéis e agitam sempre a bandeira da liberdade. Mas sem panfletismo e sim como metáfora poética.
Foi o caráter de resistência que fez o Ventoforte ser um dos ganhadores do Prêmio Teatro Cidadão (2002), instituído pelo Departamento Municipal de Teatros. São mais de 40 prêmios ganhos ao longo de três décadas, 30 peças, inúmeras viagens por países da América Latina, Europa e Estados Unidos. Premiado em Cuba, o grupo irá representar o Brasil nos palcos da Holanda, Bélgica e Itália, entre março e abril de 2006. A premiada Bodas de Sangue será apresentada no Wereld Musiek Theater Festival (WMTF), evento europeu que ocorre desde 1996 e mostra produções de músicos e artistas de outros continentes.
Música, dança, invenções e poesias compõem o teatro desse diretor, dramaturgo, ator, poeta e artista plástico. Em meio a retalhos, sucatas, bordados, bonecos, atores e público, ele vai tecendo o espírito de festa que caracteriza suas apresentações.
Cada peça é uma aventura que envolve, diverte e faz pensar. Como poucos, Ilo realiza a magia do teatro de animação, seres inanimados criam alma e vida, sejam bonecos sofisticados no palco e na platéia, ou simples objetos como uma folha de papel à mercê dos ventos ou da mão pesada do homem. Suas palavras, ao contrário da elaboração estereotipada de alguns textos infantis, falam da vida com vitalidade. De forma simples e delicada, o Ventoforte trabalha com a substância intrínseca (e muitas vezes esquecida) de cada um de nós, abordando questões difíceis, como as desigualdades, os sonhos e as angústias dos humanos, chamando as crianças (principalmente elas) para uma participação especial na construção de um mundo melhor.

Apoio e Patrocínio

"Este Projeto foi contemplado pela 31ª Edição do Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo"